A voz dos vencedores calou a todo um povo e junto com ela a história de seus lutadores por longos anos. Boa parte dos fatos da ditadura militar e dos homens e mulheres que deram sua vida por um país melhor virou silêncio de cemitério, algo maldito, ou nos melhores dos casos, mal visto. A única resistência foram a mães da Praça de Maio, consideradas “loucas” na tímida democracia dos anos de 1983.
-Teus país estão viajando.
-E quando eles voltam vó?
-Pronto meu querido, pronto...
Muitos filhos ficaram sem pais e sem respostas. Muitas vezes parentes próximos inventavam mentiras piedosas por não saber o que dizer ou com vergonha por seus netos ou sobrinhos. Uma infância de brincadeiras e ausências.

Então os murmúrios se fizeram ideias. Criado numa bolha, respirava confundido os jornais, livros, músicas, e então a universidade me recebeu com uma bofetada de realidade. A liberdade, as novas experiências, tudo chegou de uma vez para mim.
Numa classe de filosofia contemporânea me disseram:
-Aquele tá procurando um cara pra rachar um apê.
-Beleza.
-O cara é maneiro.
"Eu tinha esperança de que ele e minha mãe voltassem"
O nome dele é Camilo Cagni, magro, cabelo comprido, preto, liso, fanático por rock argentino. Foi difícil fazê-lo escutar The Doors, mas curtiu muito depois.
Compartilhamos uma quitinete no centro da cidade de La Plata, capital do estado de Buenos Aires e principal centro universitário da região. Um armário no meio separava as camas de um lado e uma mesa redonda com quatro cadeiras velhas e som do outro. Numa noite, com apenas a luz do abajur acesa, me disse: "as única coisa que tenho do meu pai são fotos e essa borracha escrita por ele que diz FAR (Forças Armadas Revolucionárias). Até os doze eu tinha esperança de que ele e minha mãe voltassem".

Por este motivo, na minha quitinete se faziam reuniões para ver o que se podia ser feito. Naquele momento, La Plata era a referência a nível nacional da organização. E grandes propostas saíram dali.
-Os assassinos dos nossos pais estão livres e contentes.
-É. Eu vi um deles hoje.
-Onde?
-Aqui mesmo.
-Filho da puta!!!!
-Porra!!! Não pode ficar assim.
-E se a gente juntar todo mundo e marcar o lugar onde ele mora?

Foram poucos na primeira, mas o barulho foi enorme. Não dava mais para ser indiferente. "Senhoras, senhores: o teu vizinho é um assassino e torturador." E cantávamos a viva voz: “Assim como aos nazistas lhes aconteceu, onde vais, nós iremos atrás”. H.I.J.O.S (Filhos e Filhas pela Identidade e a Justiça contra o Esquecimento e o Silencio), acordou a muitos e inclusive a mim.
Rodrigo Menitto é jornalista, filho de terras argentinas e brasileiras, estreia sua coluna Crônicas do Sul.