
Eu tive um irmão
que ia pelos montes
enquanto eu dormia.
Amei-o do meu jeito,
tomei sua voz
Julio Cortázar, 1967
Morreu um revolucionário! Viva a revolução! Estas palavras rodaram o mundo quando desde as montanhas colombianas chegou a confirmação da morte do máximo líder guerrilheiro do continente latino, Manuel “Tirofijo” Marulanda Vélez.
Nasceu com o nome
A vida deste camponês é a história de uma Colômbia que continua em um tortuoso caminho para a paz. Consolidada a independência pelo libertador Simón Bolívar no início do século
Em 1948 o país vivia um clima tenso que explodiu com o assassinato em abril do líder liberal Jorge Eliécer Gaitán, um importante referente das classes populares. Este fato ficou conhecido como o “Bogotazo” que cobrou numerosas vítimas na capital colombiana e desencadeou uma feroz persecução a liberais e simpatizantes que se estendeu por toda Colômbia. No campo o exército invadia povoados massacrando a sangue-frio qualquer suspeito de ter ligações com o Partido Liberal. Aqueles que conseguiam fugir iam de cidade em cidade escapando da fúria conservadora. Até que um dia vários camponeses se integram a guerrilha organizada pelos liberais, junto a eles estava o jovem Marulanda com dezenove anos. “Levantar-se em armas era a única maneira de sobreviver”, lhe dize uma vez ao escritor colombiano Arturo Alape, autor de sua única biografia.
Quando os liberais decidem depor armas com o derrocamento do presidente conservador Laureano Gómez pelo general Gustavo Rojas Pinilla em 1953, Marulanda e seus companheiros resolvem manter as armas e instalar-se no município de Marquetalia ao sul do país. Nessa época um velho amigo o batizou para sempre: “você é um tirofijo, onde põe o olho põe a bala”.
O presidente conservador Guillermo León Valencia em 1964 cansado das petições de reforma agrária e da intransigência da “República Independente de Marquetalia”, decide mandar um exército de 5 mil soldados para submeter de uma boa vez a Marulanda e seus homens. Nem imaginava Valencia que com este ato faria nascer
Quebrando cercos militares e dando certeiros golpes as forças armadas colombianas, as FARC deixaram de ser um grupo de 40 guerrilheiros para conformar um exército popular de 20 mil homens armados, dos quais 60 por cento são de origem campesina e um terço são mulheres de rango de comando.
“A guerra não é o melhor para os povos. A guerra é imposta aos povos pelas castas dominantes, as cúpulas militares, as oligarquias, os monopólios, lhe impõem a guerra aos povos para submetê-los”, declarou ao jornalista Luis Gonzalez do jornal El Tiempo em 2001. Era um homem de poucas, mas certeiras palavras; olhos pequenos que mostravam a origem indígena e amante dos tangos de Carlos Gardel e Julio Sosa. Apesar de baixo e franzino, Marulanda, era o homem mais temido pelos soldados que entravam na selva colombiana.
Corria o ano de 1984, as FARC e o então presidente Belisario Betancur assinaram um cesse ao fogo e surgiu a proposta de desmobilização dos guerrilheiros. Alguns viram a possibilidade de fazer política de maneira legal, outros, como Marulanda, desconfiaram. Conformou-se assim a União Patriótica com candidatos para as eleições municipais, estaduais e nacionais. No entanto, os reacionários não estavam dispostos a ceder um milímetro. Fazendeiros e a classe política com seus esquadrões da morte assassinaram a mais de 3 mil militantes, entre deputados, prefeitos e dirigentes, aniquilando o projeto político da guerrilha. A partir dessa experiência o secretariado das FARC constituiu no ano 2000 o Movimento Bolivariano da Nova Colômbia, uma organização clandestina que atua nas pequenas cidades do interior e nos grandes centros urbanos. Como instância maior de coordenação política nasce também na mesma época o Partido Comunista Clandestino.
Desde 1964 Marulanda iludiu pelo menos sete importantes ofensivas militares financiadas com mais de 7 bilhões de dólares pelo estado norte-americano, 250 mil soldados colombianos treinados por especialistas ianques e 35 mil paramilitares. Foi declarado morto inumeráveis vezes pelos governos de turnos sedentos em apresentar uma vitória perante o povo colombiano e seu sócio americano. Em uma de suas tantas mortes, em
O Plano Colômbia preparado por de Bill Clinton e provado pelo Congresso norte-americano no ano 2000 colocou bilhões de dólares, assessores militares, armamento de última geração gerando um banho de sangue. Desde o primeiro mandato do atual presidente Álvaro Uribe em 2002 até hoje foram assassinatos mais de 15 mil pessoas entre camponeses, sindicalistas, trabalhadores, jornalistas, militantes de direitos humanos, entre outros.
A mídia em geral, achou interessante atacar as FARC como “narco-guerrilhas” criando fantasiosas ligações com os poderosos cartéis do tráfico de droga que assola o país desde a década dos anos 80. Um discurso que teve seu efeito inclusive em organizações de esquerda que preferem não se pronunciar deixando um silêncio cúmplice. “Nem cultivamos, nem colhemos, nem comercializamos a coca. O problema é muito mais profundo e as suas origens não desejam chegar os governantes. É a pobreza de toda esta zona e de outras onde o agricultor se deu conta de que as plantações tradicionais apenas alcançavam para pagar seus custos; daí a procura de uma via para sobreviver e a encontraram na droga”, sentencia Marulanda conhecedor da problemática de seu país.
Passaram-se 17 presidentes com o sonho de capturar e posar ao lado de seu corpo inerte como um caçador e sua presa. Todos, todos eles, ficaram com o gosto amargo. Morreu de um ataque cardíaco em braços de sua companheira Sandra, deixando sete filhos. Hoje, o fascista Álvaro Uribe colocou como recompensa 2,5 milhões de dólares para quem revelar o lugar onde está enterrado. Com as miseráveis intenções de mostrar um troféu de guerra, falsificar o motivo da morte para apresentá-la como conseqüência de bombardeios feitos pelas forças armadas e assim adjudicar-se como feitores da morte de Marulanda.
Tirofijo não era um homem a ser citado por nostálgicos intelectuais de esquerda. Também não se preocupou em escrever grandiloqüentes manifestos para progressistas carentes de ídolos. Dedicou sua vida para os oprimidos do campo, treinou aqueles cansados de tantas humilhações, escutou cada problema e cada reivindicação de camponeses como ele.
“Mantenho meus sonhos de ver uma Colômbia nova, onde os colombianos se sintam seguros, com emprego, educação, saúde, bem-estar, onde se termine com as injustiças que nos obrigaram a tomar o caminho das armas. Estamos convencidos
A morte deste revolucionário, que está na altura de um Ernesto Che Guevara ou um Fidel Castro, não terá seu rosto estampado em camisetas de jovens de classe média. Mas com certeza, estará presente na memória de milhões de colombianos e latino-americanos como um exemplo de entrega na luta pela segunda e definitiva independência de nosso continente.